Mais que um título

19/05/2013 03:59

Um campeonato é um campeonato, mas este é um pouco mais do que isso. Da última vez que o Benfica ganhou uma liga falou-se no fim de uma hegemonia, alguns foram mais longe e anunciaram o início de uma nova era. Pois bem, o dia de hoje pode não traduzir a sequência de uma nova liderança, mas pode ditar o fim de uma supremacia. Desde que Jorge Jesus assumiu o cargo de técnico, o Benfica venceu um campeonato em três, o tal da profecia. Tendo em conta que, mesmo vencendo hoje, isso não significará uma inversão de rumo, uma coisa será certa, interromperá uma hegemonia portista que vem desde a década de 90, conseguindo ganhar metade das ligas em disputa. Caso contrário serão falsas profecias, pois o FC Porto vencerá três títulos nos últimos quatro possíveis, isto contabilizando apenas as épocas em que Jorge Jesus está ao leme dos encarnados.

Além disso Luís Filipe Vieira prometeu três títulos em quatro anos, caso não vença vê-se obrigado a triunfar nos próximos três para cumprir 50% da promessa, porque os outros 50 já foram conseguidos com a presença na final da Liga Europa.

Para culminar, será uma oportunidade para os portistas reduzirem para cinco a diferença de campeonatos ganhos para o Benfica, caso contrário o intervalo aumentará para sete. Um objectivo que tem como último obstáculo o Paços de Ferreira, equipa que nesta liga apenas perdeu três vezes, duas com o Benfica e uma com o FC Porto. Uma partida que decidirá se ficarão felizes os azuis-e-brancos, uma falange de adeptos cujo denominador comum é a vitória, deixando por vezes transparecer que apagaram um passado onde os títulos e o clube não andavam de mãos dadas. Faz lembrar o nosso país quando começaram a chegar os fundos europeus, todos éramos ricos, poupar deixou de ser um verbo do nosso léxico e, como sempre, quem esquece o passado tem dificuldades em prever o futuro. Penso que esta tem sido a mais-valia de Pinto da Costa, tem o passado bem presente para ir criando um amanhã risonho.

Caso as águias vençam, será o exultar de um povo que vê num triunfo um regresso ao passado de forma definitiva, como se uma só andorinha fizesse a primavera. A ânsia pelos tempos de glória está presente e qualquer vitória é um sinal do seu regresso. Também aqui é típico dos portugueses, não somos humildes nas vitórias o que dá um grande transtorno nas derrotas. Esta é provavelmente uma das grandes pechas da nação, rebaixamo-nos quando perdemos e vangloriamo-nos quando triunfamos, o que conta é o momento final sendo desvalorizado todo o processo que daí resulta.

Isto para dizer que, independentemente de quem seja hoje campeão, FC Porto e Benfica fizeram uma época no campeonato verdadeiramente assombrosa e merecem todos os elogios. Tanto Vítor Pereira como Jorge Jesus tiveram a sua melhor prestação na liga, o que significa que os adjectivos elogiosos que já receberam, num passado recente, merecem ser reforçados, estes dois técnicos conseguiram superar-se. O facto de só haver um campeão nacional não significa que só haja um bom desempenho. Há quem diga que o campeonato perdeu competitividade! Não me parece. O Sporting vai ter a sua pior prestação de sempre e já houve equipas leoninas inferiores a esta. O Paços de Ferreira alcançou o terceiro lugar e ficou à frente de um Sporting de Braga, que pela segunda vez na sua história ganhou um título. O Estoril tem demonstrado uma qualidade e consistência como poucas equipas recém-promovidas demonstraram este século, chegando ao ponto de empatar na Luz num momento decisivo da época. E podíamos estender os elogios ao Rio Ave e ao Vitória de Guimarães, mas mais importante que isso é dizer que há uma nova vaga de treinadores com um futebol menos encolhido e que acredita nas suas capacidades. Há muitos pseudo-mourinhos que têm mostrado valor, fazendo do campeonato português um bom viveiro para as grandes ligas. A comprovar são as notícias do número de jogadores transferíveis para ligas de outra dimensão, que não são exclusivamente dos dois primeiros classificados, mais um dado que revela a qualidade que por vezes teimamos em não ver. Enquanto isso vamos estando no quinto lugar do ranking da UEFA, algo impensável há uns anos atrás. Mais fraco? Não creio, houve uns, FC Porto e Benfica, que subiram mais degraus que os outros, o que não significa que os outros também não os tenham subido.

Pedro Santos Pereira

 

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